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  • Isadora Werneck

A barbárie tem cor e classe: a Chacina de Jacarezinho e a atemporalidade de uma tragédia repetida

“A política de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro mantém as características de Estado Penal segundo Loic Wacquant. Os elementos centrais dessa constatação estão nas bases da ação militarizada da polícia, na repressão dos moradores e na inexistência da constituição de direitos (...)”*.


O trecho, que poderia sintetizar a brutalidade da operação policial ocorrida ontem no Jacarezinho, apontada como a mais letal do Rio de Janeiro no período democrático, trata-se, na verdade, de uma passagem da dissertação de mestrado de Marielle Franco, defendida em 2014.


A latente atemporalidade da constatação de Marielle, cuja morte a mesma polícia não foi capaz de evitar, confirma que a chacina não é episódica. Sob as ordens do ex-Governador de “mirar na cabecinha e… fogo”, o Rio de Janeiro matou mais do que toda a polícia norte-americana em 2018**.


Além disso, nos últimos cinco anos, 274 outras chacinas foram contabilizadas no Grande Rio e, segundo o Instituto Fogo Cruzado***, 75% delas decorreram de ações policiais. Nesse contexto, e diante do agravamento da Covid-19, o Supremo Tribunal Federal decidiu suspender as operações em comunidades durante a pandemia, salvo em "hipóteses absolutamente excepcionais" e desde que com o aval do Ministério Público.


Mesmo assim, no dia de ontem, em desrespeito à decisão, pelo menos mais 25 corpos periféricos, expostos e arrastados por lençóis cobertos de sangue, somaram-se ao irrefreável ritmo diário de mortes da maior tragédia sanitária da modernidade, que no Brasil atinge mais duramente os alvos da chacina. O racismo pátrio e a letalidade policial, tão horrendos quanto cotidianos, manifestam-se de forma específica em episódios como o de Jacarezinho e de forma geral, na constante normalização do terror que se experencia.


Em um país no qual a morte triunfa infalivelmente sobre a vida, a dura conclusão é que a “Operação Exceptis" nada mais é do que a regra de um necro-sistema que sobrevive e se alimenta do extermínio. Fontes:

*https://bit.ly/3vTn3jx

**https://bit.ly/33oP9qI

***https://bit.ly/3nYrF4R

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